Tenho vindo a ponderar na seguinte citação que sigo a citar:
"Socialism can never take root in America because the poor see themselves not as exploited proletarians but as temporarily embarrassed millionaires."
- John Steinbeck
- John Steinbeck
Leio muito mais sentidos que o político/económico nesta frase. É uma alusão à alienação total que sustenta o povo dos nossos dias, espiritual, social, e animicamente. Seja marxismo ou capitalismo há sempre dois grupos: quem vive bem e quem vive mal. Só que o infeliz de hoje tem mais lubrificantes a facilitar o enema da vida. (oh Marx, o ópio do povo mudou!). Panem et circenses. (não mudou).
No intervalo que consubstancia o miserável dia de trabalho com a noite (sonhar, escape mais velho do mundo), o que vêem na televisão é mais, mais uma dose insuflada. A novela contemporânea, medindo o potencial de abuso, não tem paralelo em outras substâncias provenientes de vá, as sete artes. É cuidadosamente planeada, instruída e aprendida por quem dedica a vida a saber tecer manhas que controlem as pessoas (cristianismo?). O estupefaciente legal, socialmente aceite, sem preço monetário ou fisiológico. A moral é claramente delimitada e a justiça prevalece sempre (cristianismo?). Mas o dogma supremo da novela é a indiscutível existência do amor. O casal protagonista ama-se mas é vítima de percalços exteriores. O efeito desta situação é analógico a doutrinas cristãs no sentido que nos provede de conforto e serenidade enquanto a vida (da novela) decorre (paralela à nossa). O final será feliz, e todos queremos um término feliz à nossa vida (apodrecer num lar sem controlo urológico não apela). E depois, há a próxima e a próxima novela. É a eternidade do cristão, a reencarnação do budista. A religião já não é o ópio do povo, é esta que vem duma caixa, a qual vivemos vicariously.
Faço um interlúdio para consolidar a minha posição perante tudo isto. Se o propósito da vida é a busca de felicidade, e se a felicidade proveniente de uma ilusão, uma falácia, é tão real para o iludido como a outra, não a busca é justificada? E que padrão define a veracidade do prazer? Nada é mais que diferentes graus de ilusão. E.g. a catarse de um crente é falsa para o ateu, mas, a felicidade do último ao experienciar uma epifania de índole espiritual ao ver um indescritível pôr-do-sol sobre um mar reluzente, pode fazer um poder superior (real quiçá) dar uma gargalhada metafísica.
Sim sou descrente. Mas considero a minha devoção ao niilismo perto de religiosa. Desprezo o relaxado ateu que vem carregado de merdas de teleologias e crenças simbióticas porque no fundo precisam de algum tipo de fé: o destino, a não subjectividade social no bem/mal, almas gémeas, amor à primeira vista et coetera ad infinitum. E Agnósticos são como aquele miúdo da tua turma sem personalidade que segue sempre alguém em aspecto e mentalidade. No entanto empatizo com a maioria dos religiosos. Exactamente por a vida ser uma merda, compreendo a necessidade de escape pós nascença, e de felicidade pós morte. A diferença é que os meus escapes não são tão espirituais, mas mais espirituosos. E químicos palpáveis, digestíveis, inaláveis ou injectáveis. Em relação ao meu ideal pós-morte é o fim, o nada. Não quero céus nem reencarnar, obrigado. A ideia de eternidade é que me dá medo.
O sofrimento e suas repercussões. Nietzsche numa citação famosa deseja sofrimento às pessoas que lhe importam. Porque “nos dias de hoje a única coisa que prova valor é o que alguém consegue sofrer”. Suponho que é a sua exposição do ex malo bonum que Santo Agostinho escreveu séculos atrás. Mas a partir de que fronteira passa a dor a ser absurda e sem propósito? Devemos aspirar a ser mártires das nossas convicções? Sim. Apenas quem compadece dor e angst com as suas crenças é verdadeiro, a meu ver. O resto são posers, farsolas que cantam de alto a vida toda e no fim morrem agarrados à cruz, dispostos a lamber o escroto a qualquer entidade que lhes prolongue a vida metafisicamente. Tenho o direito de falar assim porque eu, perante o fundo da espiral decrescente em que chegou a minha vida, não aderi a nada que já tivesse exteriorizado da pauta da minha vida: Esperança, fé, teleologias, não aceitar o que se perdeu para sempre e o quão falhei em tudo. Não morri apenas por intervenção exterior. Do mal vem bem? Sempre. Compensa? Nem sempre.
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